
As 3 maiores dificuldades para instalar um carregador de carro elétrico no condomínio
Instalar um carregador no condomínio parece simples. Mas será que é?
Para quem já tem um carro elétrico, a ideia parece bastante direta: encontrar uma vaga, instalar um carregador e começar a recarregar o veículo.
Na prática, em um condomínio, a instalação envolve muito mais do que simplesmente colocar um wallbox na parede.
É preciso avaliar a infraestrutura elétrica existente, a segurança contra incêndio, o local de instalação, a expansão futura e, desde junho de 2026, também os requisitos estabelecidos pela IN 23 do Corpo de Bombeiros Militar de Santa Catarina (CBMSC).
A boa notícia é que a instalação é perfeitamente possível quando existe planejamento.
Neste artigo, apresentamos as três principais dificuldades que condomínios enfrentam ao implantar infraestrutura para veículos elétricos — e como resolvê-las.
1. Descobrir se o condomínio tem capacidade elétrica suficiente
Essa costuma ser a primeira grande preocupação.
Um carregador de veículo elétrico pode consumir uma potência considerável durante várias horas. Quando o condomínio possui apenas um ou dois veículos elétricos, isso pode não representar um problema.
Mas o cenário muda rapidamente quando 10, 20 ou 30 moradores querem carregar seus veículos.
Imagine um condomínio com:
- 20 carregadores;
- 7,4 kW por carregador;
- todos carregando simultaneamente.
A potência instalada dos carregadores chegaria a:
20 × 7,4 kW = 148 kW
Isso não significa necessariamente que o condomínio precisará disponibilizar 148 kW exclusivamente para os veículos.
O consumo real da edificação varia ao longo do dia e os carregadores podem ser gerenciados de forma inteligente.
É justamente aí que entra o gerenciamento de carga.
Gerenciamento de carga: mais carregadores sem necessariamente aumentar a entrada de energia
Um sistema de gerenciamento pode monitorar o consumo do condomínio em tempo real e distribuir a potência disponível entre os veículos.
Por exemplo:
> Se o condomínio está consumindo muita energia, os carregadores reduzem temporariamente sua potência.
> Quando o consumo geral diminui, a potência disponível para os veículos aumenta novamente.
Dessa forma, o condomínio consegue utilizar melhor sua infraestrutura elétrica existente.
O erro mais comum
Um dos maiores erros é analisar somente a potência do carregador.
O projeto deve considerar:
- Demanda atual do condomínio;
- Capacidade da entrada de energia;
- Transformador;
- Quadros elétricos;
- Alimentadores;
- Distância entre o quadro e as vagas;
- Quantidade atual de carregadores;
- Expansão prevista;
- Perfil de utilização dos veículos.
O objetivo não deve ser simplesmente instalar um carregador.
O objetivo deve ser criar uma infraestrutura que permita instalar o carregador de hoje e os próximos carregadores de amanhã.
2. Encontrar um local adequado para o carregador
A segunda dificuldade é menos óbvia, mas pode ser ainda mais importante em condomínios existentes.
Nem toda vaga é automaticamente adequada para receber um ponto de recarga.
Além da infraestrutura elétrica, é necessário avaliar a localização do SAVE em relação às características da garagem e aos sistemas de segurança contra incêndio.
E aqui entra a IN 23 do CBMSC
A IN 23 — Locais com Sistema de Alimentação para Veículos Elétricos estabelece requisitos específicos de segurança contra incêndio para locais que possuem sistemas de alimentação de veículos elétricos.
A norma se aplica a imóveis novos, recentes, existentes e preexistentes, incluindo locais fechados, cobertos e ao ar livre.
Um dos pontos importantes é a relação entre o ponto de recarga e as rotas de saída.
Em edificações que possuem apenas uma rota de saída de emergência, a IN 23 estabelece afastamento mínimo de 5 metros entre o ponto de SAVE e portas, elevadores ou outros elementos utilizados para saída do local. Para edificações preexistentes, existem possibilidades de avaliação de risco e adoção de barreiras físicas quando não for possível cumprir essa distância.
Isso significa que simplesmente escolher a vaga mais próxima do quadro elétrico pode não ser a melhor solução.
É necessário olhar o conjunto:
vaga + carregador + infraestrutura elétrica + circulação + saída de emergência + segurança contra incêndio.
A IN 23 também traz requisitos para o desligamento dos carregadores
Outro ponto que merece atenção é o desligamento de emergência.
A norma estabelece que deve existir um ponto de desligamento manual das estações de recarga em cada pavimento, localizado a no máximo 5 metros da escada ou acesso da garagem ou de outros locais que possuam SAVE.
Para edificações preexistentes, a norma permite, em determinadas condições, uma solução alternativa com dispositivo de desligamento em cada estação ou próximo a ela.
Além disso, o ponto de desligamento deve possuir sinalização específica e fotoluminescente.
Ou seja, o projeto precisa pensar também em como a instalação será desligada em uma situação de emergência.
3. Adequar o condomínio às exigências técnicas e de segurança
A terceira dificuldade é justamente reunir todas as exigências em uma única solução.
Instalar um carregador envolve diferentes disciplinas:
- Engenharia elétrica;
- Segurança contra incêndio;
- Infraestrutura;
- Proteção elétrica;
- Medição de energia;
- Gestão de carga;
- Manutenção;
- Regularização.
A IN 23 determina, por exemplo, que as instalações elétricas atendam às NBR 5410 e NBR 17019 e que o sistema de recarga esteja em conformidade com a NBR IEC 61851, além de exigir certificado de conformidade das estações de recarga.
Também são estabelecidos requisitos para o sistema de desligamento, sinalização das vagas, seccionamento da alimentação dos SAVE e manutenção periódica.
E nem todo condomínio terá exatamente a mesma solução
Esse é um ponto importante.
A IN 23 estabelece requisitos gerais obrigatórios e também prevê o Projeto Baseado em Desempenho (PBD) para situações que não se enquadram nos critérios de dispensa previstos na própria norma.
Existem, por exemplo, critérios específicos de dispensa do PBD relacionados a características como:
- Local externo e descoberto ou com cobertura leve;
- Existência de detecção automática de incêndio;
- Sistemas de extração de fumaça ou ventilação natural;
- Chuveiros automáticos;
- Características da edificação preexistente;
- Área do local onde o SAVE está instalado.
Por isso, não existe uma solução universal para todos os condomínios.
Cada empreendimento precisa ser analisado de acordo com suas características.
E quem paga a energia utilizada pelo carro?
Essa é outra questão que aparece rapidamente quando vários moradores começam a instalar carregadores.
A solução precisa permitir identificar o consumo associado a cada usuário.
Dependendo do projeto, podem ser utilizadas soluções de:
- Medição individual;
- Medição por carregador;
- Sistemas de gerenciamento;
- Plataformas de cobrança;
- Integração com sistemas de gestão condominial.
O importante é evitar uma situação em que o condomínio inteiro pague pela energia consumida por alguns moradores.
Uma infraestrutura bem planejada deve permitir medir, gerenciar e cobrar corretamente a energia utilizada na recarga.
O maior erro: resolver cada carregador individualmente
Imagine este cenário.
O primeiro morador compra um veículo elétrico e solicita um carregador.
O condomínio contrata alguém para instalar.
Alguns meses depois, outro morador solicita outro carregador.
Depois mais um.
E mais um.
Quando o condomínio percebe, existem vários carregadores instalados, cada um com uma infraestrutura diferente.
Esse modelo pode funcionar no curto prazo, mas tende a criar problemas no futuro.
Entre eles:
- Cabos passando por diferentes trajetos;
- Quadros elétricos sobrecarregados;
- Falta de padronização;
- Dificuldade de manutenção;
- Falta de espaço para expansão;
- Problemas de medição;
- Dificuldade para gerenciar a demanda;
- Necessidade de refazer instalações.
A melhor estratégia: planejar o condomínio antes de instalar os carregadores
Em vez de pensar:
> "Como instalar o carregador do morador?"
O ideal é pensar:
> "Como preparar o condomínio para 5, 10, 20 ou 50 veículos elétricos?"
A partir daí, é possível desenvolver uma infraestrutura preparada para expansão.
O projeto pode definir:
1. Onde ficarão os quadros de recarga; 2. Como será distribuída a infraestrutura; 3. Qual capacidade elétrica está disponível; 4. Como será feito o gerenciamento de carga; 5. Como cada usuário será medido; 6. Como será realizada a cobrança; 7. Quais vagas poderão receber carregadores; 8. Como atender aos requisitos da IN 23; 9. Como será feita a expansão futura.
Dessa maneira, cada novo carregador passa a ser apenas uma expansão de uma infraestrutura previamente planejada.
Checklist: seu condomínio está preparado?
Antes de instalar um carregador, vale responder:
- A capacidade elétrica do condomínio foi avaliada?
- Existe projeto elétrico para a instalação?
- A localização da vaga foi analisada?
- A instalação atende à IN 23 do CBMSC?
- Os requisitos da NBR 17019 foram considerados?
- O carregador possui certificação de conformidade?
- Existe sistema de desligamento adequado?
- A vaga será devidamente sinalizada?
- A energia consumida poderá ser individualizada?
- Existe estratégia para gerenciamento de carga?
- A infraestrutura está preparada para futuros carregadores?
- Foi definida uma rotina de manutenção?
Se várias dessas respostas forem "não", provavelmente o condomínio precisa de um estudo antes de iniciar as instalações.
Conclusão: instalar um carregador é fácil. Preparar o condomínio é o verdadeiro desafio.
A instalação física de um carregador pode parecer simples.
O verdadeiro desafio está em garantir que ele faça parte de uma infraestrutura segura, regularizada, eficiente e preparada para crescer.
Com a entrada em vigor da IN 23 do CBMSC, esse planejamento ganhou ainda mais importância em Santa Catarina.
Para síndicos e administradoras, a melhor estratégia é evitar soluções improvisadas e buscar um projeto que considere não apenas o primeiro veículo elétrico, mas todos os que poderão chegar nos próximos anos.
Seu condomínio está começando a receber solicitações de carregadores?
Antes de instalar o primeiro equipamento, faça um estudo da infraestrutura elétrica e das condições de segurança da garagem.
Um bom projeto hoje pode evitar uma obra muito maior amanhã.